ENTREVISTA
“O obeso não é só alguém indisciplinado, esse
preconceito tem de mudar”
PUBLICAÇÃO "O PÚBLICO"
23/05/2015 - 07:19
Três perguntas ao presidente da Sociedade Portuguesa
de Cirurgia da Obesidade, Rui Ribeiro.
“Muitos obesos ainda nem sequer constam da
lista de inscritos para cirurgia”
Existem regras para definir quando
chegou o momento de encaminhar uma pessoa com obesidade para uma cirurgia. No
entanto, o presidente da Sociedade Portuguesa de Cirurgia da Obesidade assegura
que a vontade do doente é determinante. Rui Ribeiro salienta que estas
intervenções são cada vez mais eficazes, sobretudo o bypass gástrico,
e que o preço é largamente compensado pelos ganhos em saúde. O cirurgião
entende, por isso, que é fundamental que o país volte a ter um Programa de
Tratamento Cirúrgico da Obesidade, a par de programas que promovam estilos de
vida saudáveis.
Perante um obeso, quando é que
se determina que nada mais é possível e que a solução passa pela cirurgia?
Diria que, em primeiro lugar, é quando o doente quer perder peso e tem doenças
muito graves que quer controlar. Esse é o grande critério, embora existam de
facto regras, como o doente ter um índice de massa corporal (IMC) superior a
40, a que chamamos obesidade mórbida, porque causa morbilidade, isto é, outras
doenças associadas, como diabetes, colesterol e hipertensão. Também se
recomenda a doentes com IMC acima de 35, desde que tenham duas doenças que vão
melhorar significativamente com a cirurgia. Há ainda limite de idade, entre os
18 e os 65 anos. Isto é o que está nas normas portuguesas. Mas a nível
internacional existem guidelines em que mesmo os doentes com IMC entre 30 a 35, se tiverem doenças mal
controladas, podem ser candidatos a cirurgias deste tipo e também os diabéticos
de tipo 2 ou pessoas acima dos 65 anos, desde que a condição do doente o
permita.
Faz sentido voltar a ter o
Programa de Tratamento Cirúrgico da Obesidade, extinto em 2012?
Com certeza. Os gastos da sociedade com a obesidade e com doenças associadas,
como a diabetes, a hipertensão e alguns cancros, são enormes. Sabemos que os
obesos têm mais cancros, nomeadamente as mulheres, com uma incidência 2,5 vezes
superior à população com peso normal, sobretudo de cancro da mama, do ovário e
do endométrio – os cancros ligados às hormonas. É uma cirurgia muito eficaz do
ponto de vista sócio-económico: poupa-se muito dinheiro ao Estado, às pessoas e
à sociedade. Temos de criar uma rede de centros de referência, porque quanto
mais casos tratarmos melhor fazemos e com menos complicações. Era preferível
ter seis centros a operar 500 doentes cada do que termos 30 a tratar um número
mais pequeno. Pouparíamos recursos e teríamos melhores resultados, até porque
há sítios com listas de espera de três anos.
Há várias técnicas, sendo o bypass gástrico
a que tem agora melhores resultados. O que muda com esta intervenção para
garantir o sucesso?
O segredo está nas hormonas da fome e da saciedade que alteramos profundamente
com a redução do estômago e do intestino. A obesidade é uma doença genética,
ainda que com uma componente ligada à educação e ao meio ambiente. A genética é
muito importante, estes doentes têm uma fome mais forte e compulsiva e não têm
saciedade também porque o intestino é mais longo. Da mesma forma que os
diabéticos têm uma resistência à insulina, os obesos têm uma resistência a uma
hormona que é a leptina. Infelizmente o obeso não é só alguém indisciplinado e
esse é um preconceito que tem de mudar.